Os primeiros Valdenses foram membros de um movimento de reforma na Europa, especificamente nas regiões alpinas da Espanha, França e Itália, durante a alta Idade Média. Considerados precursores da Reforma Protestante por vários historiadores [1], os Valdenses enfatizaram a importância de aderir estritamente aos ensinamentos da Bíblia como a única regra de fé.

Ao descobrir que muitos ensinamentos e práticas da Igreja Romana se baseavam mais na tradição do que nas Escrituras, eles rejeitaram essas doutrinas e rituais, chamando os crentes a voltar à simplicidade do estilo de vida do Novo Testamento e aos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos.

A Igreja Católica investigou os ensinamentos dos Valdenses no Terceiro Concílio de Latrão (1179) e condenou os crentes como hereges [2]. Os conselhos subsequentes repetiram essa condenação à heresia, provocando severas perseguições e fazendo com que fugissem para locais mais hospitaleiros. Como resultado, seus ensinamentos se espalharam por regiões distantes da Europa. Ao contrário de outros grupos de Reforma, os Valdenses não desapareceram, nem foram absorvidos por outros movimentos, mas continuaram até hoje.

Por vários anos, pesquisei, com a ajuda de estudantes de pós-graduação, fontes arcaicas das bibliotecas européias para obter evidências da guarda do Sábado entre os Valdenses. Essa pesquisa é desafiadora porque os próprios documentos Valdenses foram queimados ou destruídos por séculos de perseguição [3]. A única evidência que se encontra vem da boca de seus inquisidores, que frequentemente os retrataram como um movimento herético.

Uma das principais fontes de evidência da guarda do Sábado Valdense durante a primeira metade do século XIII vem de uma coleção de cinco livros escritos contra os Cátaros e Valdenses em cerca de 1241-1244, pelo inquisidor dominicano Padre Moneta de Cremona, no norte da Itália.

Moneta apaixonadamente se defendeu das críticas de Valdenses e Cátaros de que os Católicos eram transgressores do mandamento do Sábado. No capítulo “De Sabbato et De Die Dominico”, ele discutiu o significado do Sábado do sétimo dia de Êxodo 20:8, “Lembre-se do dia do Sábado, para santificá-lo”, e o contrastou com o valor do “dia do Senhor”, sua forma de chamar o primeiro dia da semana [4].

Moneta afirmou que o Sábado era para os judeus, apontando que era um memorial da Criação e de sua libertação do Egito. O Sábado judaico, disse ele, era “um sinal e figura do sábado espiritual do povo cristão. … No entanto, deve ser entendido que, como os judeus observavam o Sábado, também observamos o dia do Senhor.” Ele acrescentou: “Hoje observamos como uma ordenança da Igreja, e é em reverência a Cristo que nasceu naquele dia, que ressuscitou naquele dia e que enviou o Espírito Santo naquele dia”.

Moneta continuou sua disputa referindo-se a Gálatas 4:10 11, afirmando: “É pecado observar dias”. Ele continuou apontando que a circuncisão “não será benéfica para você” (Gálatas 5:2 3, NASB) [5], e nem a guarda do Sábado. Moneta concluiu citando Colossenses 2:16 comentando que “os dias relacionados às festas judaicas não são observados, pelo contrário, apenas os dias instituídos pela Igreja, como aquele [o Domingo]” [6].

O tratado de Moneta mostra claramente que um grupo considerável de Valdenses e Cátaros no norte da Itália e no sul da França durante o século XIII estava adorando em outro dia que não o Domingo, ou seja, o Sábado do sétimo dia.

A guarda do Sábado entre os Valdenses era mais difundida na Boêmia e na Morávia, lugares para os quais eles fugiram durante a perseguição papal. Um manuscrito do século XV, publicado pelo historiador da igreja Johann Döllinger na “History of the Sects”, relata que os Valdenses na Boêmia “não celebram as festas da bem-aventurada Virgem Maria e dos Apóstolos, exceto o dia do Senhor. Poucos celebram o Sábado com os judeus.” [7]

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Essas evidências de fontes primárias mostram claramente que a guarda do Sábado era uma prática entre um bom segmento de Valdenses no século XIII, continuando no século XV.

O que levou os Valdenses do norte da Itália a abandonar a guarda do Sábado? A resposta remonta ao tempo da Reforma. Em 1532, em uma reunião entre Valdenses e representantes da Reforma Francesa, realizada no vale de Angrogna, a maioria dos Valdenses votou para se juntar à Reforma Francesa.

Consequentemente, eles pararam de treinar seus pregadores itinerantes, ou “barbas”, no College of the Barbes, em Pra del Torno, e enviaram seus candidatos a pastores à Genebra, na Suíça, para serem educados por João Calvino e seus associados. Calvino acreditava que o Sábado ainda tinha significado espiritual, mas que o sétimo dia literal era cerimonial e uma sombra, baseando sua visão nas mesmas passagens das Escrituras que o inquisidor usara contra os Valdenses [8]. A nova geração de pastores educados sob Calvino não mais ensinou o Sábado do sétimo dia, mas o Domingo, como o dia de adoração.

Essas descobertas significativas da guarda do Sábado Valdense convidam novas investigações sobre manuscritos anteriores ao século XII, que podem trazer à luz ainda mais evidências sobre a guarda do Sábado entre os primeiros Protestantes na Itália e na França.

 

Referências

  1. Veja, por exemplo, Earle E. Cairns, Christianity Through the Centuries: A History of the Christian Church, 3rd ed. (Grand Rapids: Zondervan, 1996), p. 221.
  2. http://www.newadvent.org/cathen/09017b.htm; http://www.catholic.org/encyclopedia/view.php?id=6882.
  3. Veja James Hastings, Encyclopaedia of Religion and Ethics (Edinburgh: T. & T. Clark, 1954), Vol. XII, p. 665.
  4. Moneta e Tommaso Agostino Ricchini, Venerabilis Patris Monetæ Cremonensis ordinis prædicatorum S. P. Dominico Æqualis adversus Catharos et Valdenses libri quinque: Quos ex manuscriptis codd. Vaticano, Bononiensi, ac Neapolitano (Roma: 1743; reimpressão, Ridgewood, N.J.: 1964), pp. 475-477.
  5. Citações bíblicas a partir da New American Standard Bible, copyright © 1960, 1962, 1963, 1968, 1971, 1972, 1973, 1975, 1977, 1995 by The Lockman Foundation. Uso com permissão.
  6. Moneta e Ricchini, pp. 476, 477.
  7. Johann Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters (Munich: Beck, 1890), Vol. II, p. 662.
  8. João Calvino, Institutes of the Christian Religion (1536), trad. Ford L. Battles (Grand Rapids: Eerdmans, 1995), p. 23.

 

Traduzido e adaptado por Fabricio Luís Lovato a partir de “Were Waldensians Sabbath-keepers?”, publicado em Adventist World.

 

Para saber mais sobre por que os Batistas do Sétimo Dia também observam o Sábado, acesse “Declaração de Fé: Sábado Sagrado”.

 

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